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BAIXA AUTOESTIMA É FATOR DE RISCO PARA GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

Escrito por: EBVB

Febrasgo one2030A gravidez na adolescência é considerada um problema de saúde dos mais sérios que existem e que impacta diretamente na qualidade de vida de um país, de seus jovens e adolescentes.

Não é nenhuma uma novidade na história das mulheres que o modus operandi da sociedade as criava para casarem e reproduzirem. A morte prematura, na Idade Média, era vista como parte do sistema. Ainda bem que a sociedade foi se modernizando e que as mulheres foram tendo perspectivas de vida diferentes e se tornaram mais conscientes e mais donas do próprio corpo.

Contudo, e apesar do desenvolvimento da medicina em favor da mulher, principalmente no que diz respeito ao desejo de reproduzir ou não, ainda estamos longe de uma consciência plena, capaz de evitar um desarranjo na saúde e, principalmente, socioeconômico.

O aumento da população de forma desenfreada, como já apresentado na teoria de Maltus, cresce de forma geométrica, enquanto outros itens para a sobrevivência e boa administração desta população cresce de forma aritmética. E, assim, a cada ano, mais e mais jovens engravidam em uma idade em que ainda dormem abraçadas com o ursinho de pelúcia.

“A juventude é uma fase de escolhas com influências determinantes para o presente e o futuro de cada pessoa. Ou seja, é determinante também para a população de um país e para a sociedade em geral, seja levando pleno desenvolvimento pessoal e econômico ou criando obstáculos para a realização dos mesmos”, explica Dr. Luiz Roberto Zitron, ginecologista e obstetra, que trouxe o tema mortalidade materna e neonatal sob a ótica da gravidez na adolescência, para a Terceira Jornada do ONE 2030, que abordou o ODS 3 Saúde e Bem-Estar.

Segundo a OMS, adolescente é aquele que possui entre 10 e 19 anos de idade. Em 2011, um estudo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para Infância), englobando a faixa etária compreendida entre 10 e 24 anos, apontou que o número de adolescentes entre 1950 e 2009 havia duplicado, passando de 500 milhões para 1,2 bilhão.

Deste total, entre 15 a 19 milhões dão à luz todo ano e 1 milhão são menores de 15 anos de idade, causando um impacto negativo de proporções importantes na sociedade.

A maior parte destes jovens, um em cada dez, vive hoje em países pobres e, nos países em desenvolvimento, metade da população tem menos de 18 anos de idade.

 É na Índia onde se encontram a maioria deles, 356 milhões, seguido da China, com 259 milhões. Indonésia, Estados Unidos e Paquistão aparecem em seguida com 67 milhões, 65 milhões e 59 milhões, respectivamente.

O Brasil ocupa a sétima posição, com 51 milhões de adolescentes, sendo que os filhos de adolescentes menores de 15 anos representaram 18% dos 3 milhões de nascidos em 2015.

Complicações na gravidez e puerpério são a segunda causa de mortalidade feminina no mundo, aumentando o risco com as gravidezes precoces, além dos cerca de 3 milhões de abortos inseguros feitos mundialmente, sem assistência, escondidos e cheios de tabus e medo.

ANTICONCEPCIONAL SIM, E DAÍ?

A mortalidade neonatal (em crianças de até um ano de idade) tem um risco substancialmente maior nesta faixa etária. Para Dr. Zitron, a gestação na adolescência aumenta a mortalidade materna e neonatal, causando grande impacto neste dado, sendo que os fatores de risco para gravidez nesta faixa etária são os mais variados possíveis, indo desde ausência do pai, falta de diálogo, dificuldade escolar, violência domestica até, e principalmente, baixa autoestima.

“O desconhecimento de métodos anticoncepcionais não é um dos maiores fatores de risco, pois a maioria das adolescentes que engravidam tem conhecimento sobre o tema, e no entanto, engravidam para se sentirem mais autônomas e seguras, como é o caso das grandes periferias do país, em que muitas jovens engravidam, por exemplo, dos chefes do tráfico para, dentre outras coisas, se sentirem mais empoderadas”, exemplifica o médico que, durante muitos anos atuou voluntariamente nestes locais.

“Falta empoderamento feminino também para solicitar, por exemplo, que o parceiro faça uso de métodos anticoncepcionais e para enfrentarem a situação da maneira correta, quando não para evitá-la”, conclui ele.

Apesar de medidas tomadas pelo Ministério da Saúde e por ONGs, e a consequente diminuição desta incidência, caindo de 661 gestações para 546 gestações por ano, ou seja -17%, a prevalência ainda é alta no país.

E dentre as consequências disto estão o abandono dos estudos (50% maior em relação às que não engravidam), a perpetuação da pobreza, do desemprego e do subemprego, tornando o problema uma questão que ultrapassa os limites da saúde e do bem-estar, chegando a atingir principalmente o âmbito socioeconômico da nação.

“Pode parecer mais estranho ainda quando se conclui que a baixa qualidade de vida, causa, ao contrário, um alto risco de reincidência. Cerca de 61% das jovens apresentam chance de ter outro filho antes dos 21 anos, aumentando o índice de mortalidade infantil e materna”, informa Zitron, incluindo dentro dos riscos já existentes os de traumas obstétricos causados pela impossibilidade destas jovens de terem atendimento adequado, como o exame pré-natal, por exemplo.

Isto torna claro a necessidade de investimento em politicas públicas de prevenção, programas de ações que promovam educação reprodutiva, autonomia e empoderamento destes adolescentes no sentido de ampliar seu conhecimento em relação à própria sexualidade e seus direitos.

Para Zitron, se os jovens tiverem amor próprio, equilíbrio e embasamento sociocultural, as chances de diminuição destes índices podem ser significativas.

“É preciso garantir acesso à informação correta e na linguagem adequada, é preciso construir vínculo entre médico e paciente para se conseguir este desenvolvimento, pois o trabalho que vem sendo feito, apesar de melhorar a incidência de gestação na adolescência, está longe do que se considera ideal”, afirma.

De fato, para os países em que a cultura do casamento antes do 18 anos é algo natural, a OMS preconiza esta redução, sugerindo o aumento da autoestima dos adolescentes, bem como o envolvimento dos familiares e da sociedade para garantir a tomada de decisão correta e, acima de tudo, para garantir o sentimento de proteção entre estes jovens.

 

QUEM SÃO OS ADOLESCENTES GRÁVIDOS NO MUNDO?