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A IRREVERÊNCIA DE UM HOMEM ILUMINADO

Escrito por: EBVB

Graffiti Contra Enchente One2030Dono de uma voz grave e de um coração forte, o menino magrinho, nascido na periferia do Capão Redondo, zona sul do município de São Paulo, e que sobreviveu a um tiro à queima roupa na nuca, sobe ao palco da Segunda Jornada do ONE2030, para falar sobre Saneamento.

Irreverente e irrequieto, Rodrigo de Souza Dias, mais conhecido como Gamão, é um dos grafiteiros famosos da cidade de São Paulo. Mas nem sempre tudo foi colorido na vida deste jovem de 32 anos.

Desde pequeno, Gamão se recorda da dura realidade que é viver às margens, seja da sociedade ou do Córrego Pirajuçara. “Mas Deus tinha um propósito de vida para mim e colocou o hip hop no meu caminho. Em 1997, comecei a dançar break… pra quem não sabe o que é break, é aquela dança que você vem, e pá, no pé, aqui….hoje eu prefiro o já que já era, deixa pra lá”, e arrancando gargalhadas e aplausos da platéia ele confessa ter sido também pichador, “a gente tem que ser honesto e falar a verdade”.

Foi quando conheceu o grafiteiro do Racionais MC, Erivaldo Pereira, e teve a oportunidade de conhecer a cultura e a ideologia do grafite, que é de onde tira, atualmente, seu sustento de vida.

Em 2013, depois do Córrego Pirajuçara ter sua pior enchente e deixar casas inteiras do bairro manchadas de barro e lama até quase o teto, Gamão decidiu que era hora de fazer algo por sua gente e tentar, ao menos, trazer cor e autoestima para a vida e a moradia de pessoas que, agora, só viam barro e sujeira.

Assim, em 2015, nasceu o projeto Graffiti contra Enchente, que faz parte do Coletivo Raxa-Kuka Produções, um selo cultural, montado por Gamão e um de seus grandes ídolos, o grafiteiro Aguinaldo Mirage.

Contando apenas com a mobilização da comunidade e parcerias locais, como a Agência Solano Trindade, Gamão reclama da falta de incentivo político, principalmente, para educar os moradores a cuidarem bem da “quebrada” e do planeta como um todo, além da falta de ajuda de custo para a realização do evento que o projeto realiza todo ano, com o objetivo de cuidar, educar e mobilizar crianças e jovens.

“São crianças que brincam dentro deste Córrego, que adoecem…” Além de atendimento médico, as crianças recebem também instruções de higiene e de como manter limpo o seu entorno.

São mais de 2 mil famílias atendidas, mil casas pintadas e um perímetro de mais de 3km de muro grafitado, mobilizando artistas do mundo todo, em especial os grafiteiros do Chile, que vem para ajudar a transformar a realidade do Capão Redondo.

“Minha missão é grande: passar a realidade da periferia para vocês. Faço isso por amor e com cor. Me sinto bem fazendo isso. A arte salva e transforma, eu sou a prova viva disto”.


AMIGO DOS CANA

– “Parado, mão na cabeça”!

– “E aí, Gamão?”, pergunto eu, enquanto tomamos uma cerveja num boteco de esquina.

– “Respondo sempre as mesmas coisas, que sou artista, que sou honesto, mas você sabe, né, bastou termos um pouco de tatoo a mais e esse jeito de se vestir, que a coisa complica”, me responde ele, com uma gargalhada irreverente que vem de um rosto quase que inteiro reconstruído por placas de platina e pinos.

E continua:

– “De repente, escuto que não é para eu me mexer. Já fiquei cabreiro, né?! Com esses caras a gente nunca sabe de onde a bala vem”.

O policial, segundo Gamão, vai até a viatura, chama o colega de trabalho e pede uma foto ao lado de Gamão.

– “Sou fã dos teus grafites, truta!”, afirma o policial, enquanto abraça o Gamão, que olha sério para mim e pergunta com uma gargalhada: “vê se pode, eu agora, truta dos cana?”


TUDO O QUE PERDEMOS

Na maior cidade do hemisfério sul, muitas denominações de bairros e rios mantém seus nomes originais da língua do povo que aqui vivia, o tupi-guarani. Estas denominações vêm de um tempo em que São Paulo era descrita pelos jesuítas como sendo um local com “ares frios e temperados como os de Espanha, uma terra mui sadia, fresca e de boas águas”.

É do tupi-guarani também que vem a palavra Pirajuçara, que quer dizer “peixe que trava” ou “peixe que dá coceira”. Com o passar do tempo, perdemos não apenas o conhecimento desta língua e seus significados, como também deixamos de ser uma cidade sadia e de boas águas.

O assoreamento dos rios da cidade, que é o processo pelo qual os sedimentos (areia, entulho e lixo, por exemplo) se acumulam em seus leitos, embora seja considerado um processo natural, se torna mais intenso e agressivo ao meio ambiente através da ação do ser humano.

O acúmulo de lixos nos rios e o desmatamento das matas ciliares (vegetação próxima às margens dos cursos d’água) ajudam a potencializar o assoreamento, provocando consequências negativas para a qualidade de vida de todos os seres que habitam a região afetada, como as enchentes que vemos todos os anos na cidade.

As enchentes recorrentes em São Paulo são prova da perda destas boas águas que aqui existiam, águas com peixes que nutriam e alimentavam. Mas não foi só isso que perdemos.

Para Gamão, coordenador e artista do Projeto Graffiti contra Enchente, perdeu-se histórias de vidas, perdeu-se memória. “Percebemos que o mais grave para os moradores da região do Capão Redondo não era a perda do mobiliário e dos eletrodomésticos, mas sim as recordações do passado e a vontade de se manter no bairro. Percebemos que era preciso transformar para mudar a realidade”.

“Para nós da MCI, o projeto Graffiti contra Enchente mostra que saneamento começa dentro de casa. Temos orgulho de sermos porta-vozes de histórias assim. Tornar sustentável a insustentável cidade de São Paulo é tarefa árdua, mas que cabe a todos que dela desfrutam e que nela vivem, conclui Rodrigo Cordeiro, Diretor de PCO da MCI Brasil.